Esta edição é baseada no The Global Risks Report 2026 (21ª edição), do World Economic Forum, que consolida a percepção de mais de 1.300 líderes e especialistas globais por meio do Global Risks Perception Survey (GRPS) 2025–2026, coletado entre 12/08 e 22/09/2025.
O relatório não “prevê o futuro”; ele estrutura cenários plausíveis para apoiar prevenção e gestão de riscos em um contexto de aceleração, interconexão e velocidade crescentes.
Por que “Tecnologia” merece foco executivo agora
O relatório sinaliza que os riscos tecnológicos seguem crescendo com baixa capacidade de contenção. No horizonte de 2 anos, Misinformation and disinformation e Cyber insecurity aparecem entre as principais preocupações (respectivamente #2 e #6). Ao mesmo tempo, Adverse outcomes of AI technologies é o risco com maior salto de relevância no tempo, indo de #30 (2 anos) para #5 (10 anos).
Em outras palavras: o curto prazo pressiona por resiliência e integridade digital, enquanto o médio/longo prazo exige governança de IA e confiança sistêmica como prioridades de conselho.
Riscos tecnológicos em detalhe
1) Desinformação e deepfakes: o colapso do “consenso sobre fatos”
O relatório descreve um cenário de “information chaos”: deepfakes realistas e conteúdo sintético ganham escala e podem tornar impraticável distinguir verdade de engano, corroendo a esfera pública e a confiança. Há impactos diretos em eleições, reputação, estabilidade social e resposta a crises.
Além disso, a integridade das notícias online fica sob pressão, pois diferenciar conteúdo autêntico de sintético (vídeo, áudio e texto) torna-se progressivamente mais difícil.
Implicação para empresas: o risco deixa de ser apenas “comunicação” e passa a ser risco operacional e de marca, com potencial de fraudes, engenharia social avançada e contestações sobre evidências.
2) Ciberinsegurança: ataques mais frequentes e sofisticados, com impacto no físico
O relatório ressalta o aumento de ataques cibernéticos direcionados a infraestrutura crítica, empresas e governo, em frequência e sofisticação.
E o ponto-chave: a segurança digital passa a ser também segurança física e nacional quando falhas e ataques atingem energia, água, transportes e sistemas essenciais.
Implicação para empresas: a superfície de ataque se expande com cloud, integrações e cadeias digitais; e o impacto tende a ser cascata (fornecedores, clientes, continuidade de negócios).
3) IA em escala: efeitos adversos sistêmicos (mercado, sociedade, segurança)
O relatório descreve a transição da IA de “fronteira” para força sistêmica, moldando economias, sociedades e segurança.
Entre os efeitos adversos destacados:
Mercado de trabalho e coesão social: em um pior cenário, produtividade e desemprego podem coexistir e reforçar economias “K-shaped”, com efeitos sobre propósito e alinhamento social.
Erosão de pensamento crítico e dependência: a integração de IA em sistemas educacionais “há muito desatualizados” pode enfraquecer o desenvolvimento de pensamento crítico; surge ainda o risco de dependência (“second brain”).
Perda de controle (mudança estrutural de poder): melhorias incrementais podem deslocar agência humana para sistemas de IA ao longo da década.
Uso militar e escalada não intencional: a expansão de casos de uso militares aumenta o risco de falhas propagarem-se por cadeias de comando e sistemas de dissuasão.
Implicação para empresas: governança de IA deixa de ser “compliance” e vira governança corporativa, com controles, auditoria, rastreabilidade e gestão de risco de modelos.
4) IA e infraestrutura: energia, água e externalidades operacionais
O relatório traz um alerta sobre externalidades físicas da IA generativa: consumo energético significativamente superior a softwares tradicionais, além de impactos potenciais em poluição, e-waste e demanda de água (data centers).
No capítulo sobre infraestrutura, há estimativa de que a demanda de energia de data centers de IA nos EUA pode crescer 30 vezes na próxima década.
Implicação para empresas: custo e risco de continuidade (energia/água), exigindo planejamento de capacidade, eficiência e resiliência.
5) Tecnologias de fronteira e “saltos quânticos”: complacência criptográfica e quebra da confiança digital
O relatório aponta riscos relevantes com computação quântica: ataques futuros a criptografia “clássica” podem comprometer infraestruturas de confiança digital (autenticação, proteção e transmissão de dados).
Ele também destaca o desafio de prontidão: o IBM Quantum Safe Readiness Index indica média de 25/100 em prontidão “quantum-safe”.
E, no pior cenário, a quebra ampla de protocolos criptográficos pode levar a mais ataques a infraestrutura crítica, com apagões, contaminação de água e acidentes, além de um risco sistêmico de colapso da confiança digital.
Implicação para empresas: “quantum-safe” deve entrar no radar como programa de transformação (inventário criptográfico, migração e agilidade criptográfica), não como projeto pontual.
Recomendações práticas (para empresas de tecnologia)
Governança de IA (nível diretoria/comitê)
Definir política corporativa de IA (uso, dados, segurança, propriedade intelectual, limites de autonomia).
Implantar Model Risk Management: validação, monitoramento, explicabilidade quando aplicável e trilhas de auditoria.
Integridade da informação e proteção contra deepfakes
Estabelecer protocolos de “autenticidade”: checagem de origem, assinaturas/selos, validação de evidências e rotinas anti-fraude.
Treinar equipes (executivos e operação) para engenharia social “turbinada por IA” e ataques de reputação.
Ciberresiliência orientada a continuidade
Adotar postura de risco: segmentação, zero trust, redundância e testes de resposta a incidentes.
Elevar gestão de terceiros: requisitos mínimos, monitoramento, hardening e cláusulas contratuais de segurança, dado o efeito cascata em cadeias digitais.
Programa “quantum-safe” com visão de portfólio
Mapear onde há criptografia (sistemas, integrações, dados históricos e backups).
Iniciar trilha de migração para criptografia pós-quântica e agilidade criptográfica.
Infraestrutura e sustentabilidade operacional
Planejar capacidade (energia/água), otimização de workloads e eficiência de data centers e cloud, antecipando pressões de demanda.A mensagem central do Global Risks Report 2026 é direta: tecnologia segue gerando valor, mas, sem governança e resiliência, ela também pode acelerar riscos em escala sistêmica, com impactos em confiança, continuidade e estabilidade.